Resenha –London’s weather and the everyday: two centuries of newspaper reports



Na publicação comandada pelos pesquisadores ligados à Escola dos Analles em 1988, História Novos Objetos*, encontramos um artigo chamado “O clima: história da chuva e do bom tempo”, de autoria de Emmanuel Le Roy Ladurie. Esse é um texto fundado para pensar o clima dentro de uma perspectiva histórica, elencando uma série de dados sistematizados sobre amplitudes térmicas e contextos sociais, fazendo com que as humanidades começassem a se preocupar com isso que o campo científico da História ainda chamava de “novos objetos”.

Com a chegada dos anos 1990, e a consolidação de uma agenda ambiental orientada por encontros internacionais que geravam não só novos pactos mundiais, mas também acúmulo de conhecimento sobre fenômenos como o aquecimento global, perceber o clima enquanto objeto científico a ser apreendido por diversas áreas poderia sugerir a consolidação dessa discussão nas ciências humanas. Porém, isso não ocorreu.

Discutir questões climáticas nos anos 2000 é estar, ainda, diante de trabalhos oriundos, sobretudo, das Ciências da Natureza. Ou seja, não se confirmava o desejo de Ladurie de que esse tipo de estudo fosse ampliado, sendo capaz de reorientar horizontes e abordagens nas Ciências Humanas.

É justamente por esse cenário que o artigo publicado em agosto de 2018 London’s Weather And The Everyday: Two Centuries Of Newspaper Reports**, de Mike Hulme e Nicholas Burgess torna-se um trabalho tão relevante na apresentação do clima enquanto objeto a ser percebido pelas Ciências Humanas. Mais do que isso, os autores apresentam uma proposição de categorização do objeto “clima” através do suporte da imprensa escrita – o que pode ser estendido para demais meios escritos.
 
Foto 1 - Ilustração referente ao ano "sem verão". 1816

O interesse dos pesquisadores é produzir uma análise através da imprensa londrina, que apresentava os dados meteorológicos de forma diária, e com isso permite abarcar um período que inicia em 1816 e, através de intervalos, chega até 2016 – formando um importante conjunto de dados das médias de temperatura nesse marco de duzentos anos. Conhecido como o ano sem verão, dado as anormalidades climáticas registradas na América e Europa, 1816 é uma inflexão que já orienta para uma postura interessada em debater a natureza como elemento central de um recorte científico, escolha que, por si só, já rompe com os eventos norteados pela ação tão somente da cultura.

Somado a isso, os autores se preocupam em apresentar uma orientação política para a importância na recuperação desse tipo de informação. E essa orientação diz respeito a uma preocupação com as mudanças climáticas da contemporaneidade, e quais os níveis de perigo que cada sociedade, em diferentes contextos, elencou como suportáveis. Compreender que dominar esse tipo de informação é importante dentro do processo político ambiental, efetivamente quando estiver em jogo gestões institucionais, é a contribuição para além da determinação de um campo científico.

Entender a sociedade a partir da sua relação sensível com o clima é, nesse artigo, algo que pode ser percebido através da busca do que chama de “tropos linguísticos” presentes na imprensa. Há as indicações meteorológicas, e também há, por consequência, reações a elas, as surgirão de forma concreta através de fenômenos como altas temperaturas, enchentes, ventanias, enfim, toda sorte de ações que cotejam essa intersecção entre natureza e cultura.


Recuperar esses tropos levou a uma construção metodológica que culminou na apresentação de quatro categorias que emergiram, e agora podem colaborar enquanto referenciais para trabalhar com o tema do clima junto aos meios de comunicação. Seriam essas as proposições, as quais são referenciadas na língua original e na alternativa em português de uso das mesmas:
Unsualweather / Fato climático – a forma mais comum de encontrar o tema do clima, quando se apresenta a ideia de disrupção do cotidiano. O clima impede algo, gera alguma consequência que rompe com a rotina do que vem a ser um dia considerado normal em determinado contextual social localizado no tempo e no espaço.

GreatStorms / Eventos Extremos – momento em que o clima está na manchete, e está associado a uma disrupção natural de grandes proporções. O interesse se concentra na apreensão do fenômeno em sua forma estrutural, de consequências físicas, mas também no nível do sensível, quando o acontecimento segue reverberando no meio de comunicação.

The culpability os weather / Atribuição de culpa–a forma de atribuir culpa às aos fenômenos ambientais naturais. Invariavelmente eles causam danos à cultura, e são vistos como alheios ao processo da experiência humana na Terra.

Bench-Markingweatheragainstthepast / Comparação temporal – Utilização de contextualização baseado na comparação com o passado, servindo assim como referência ao evento ocorrido no presente, da mesma que contribuindo para uma perspectiva de futuro, ou não.

Ampliar a discussão de Hulme e Burgess para pensar uma Educação Ambiental que se vale de suportes de comunicação/imprensa em suas perspectivas históricas, é contribuir aos fundamentos de um campo que atualmente se debruça, justamente, sobre as mudanças ambientais globais. Ao apresentar o caso de Londres o que surge é um horizonte a ser explorado, que possui suas raízes em trabalhos como os de Emmanuel Le Roy Ladurie, mas que aponta para uma dimensão política de engajamento social junto ao tema, quando entende a relevância na construção de dados históricos para a gestão publica que vise repensar as práticas humanas que incidem sobre a atual crise ambiental no século XXI.

*LE GOFF, J.; NORA, P. História - Novos Objetos. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1988.

**Artigo originalmente publicado na Revista Weather, em 19 de agosto de 2018.



 Felipe Nobrega Ferreira
Graduação em História (FURG),
mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG).
Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.