Dossiê Temático ed. 1: Azul


Pensar teoricamente é estar imerso no seu tempo, é tentar compreender a sua realidade e formular proposições aos questionamentos que o presente levanta. Pelo menos é assim que eu penso. A partir disso, a decolonialidade se mostra como um caminho possível para se pensar além da modernidade colonial do Norte, cujas perguntas já são respondidas pelo Capital e não há nenhum interesse em elaborar novos questionamentos. A globalização está aí, acontecendo. Minha roupa foi fabricada na
Alemanha, meu celular na China, as peças do computador em que escrevo isso vieram de Taiwan, Coréia do Sul e EUA. De repente o mundo é pequeno. Todos esses países reunidos no meu quarto. Porém, demoro uma hora de ônibus para chegar à cidade mais próxima da minha. A capital do meu estado está a cinco horas. A velocidade com que me desloco não acompanha a velocidade com que a informação e as mercadorias chegam até mim. No fim, o mundo é pequeno para o Capital, mas ainda é enorme para mim.

Com essa chuva de mercadoria estrangeira somada às várias informações que temos do mundo fora do nosso quarto, esquecemos de olhar para a rua onde fica a nossa casa, de prestar atenção no trajeto para o trabalho ou de pensar quem somos nesse mundo. Sendo assim, se o consumo rege a nossa vida, servimos apenas para comprar manufaturados da metrópole, enquanto exportamos as matérias-primas. Quinhentos anos separam a colonização da América dos dias atuais. Nada mudou.

Os processos de independência na América nos deram certa autonomia política, mas hoje percebemos que isso não foi o suficiente. Não colonizaram apenas a nossa terra. Colonizaram nossa mente, nosso sentir, nossa visão, audição, tato, paladar e olfato. Nosso corpo todo está colonizado. A opressão colonial não está mais com a força de um Estado soberano e seu exército em nosso território, está na propaganda, na exportação de commodities, no subdesenvolvimento e nos empréstimos que a Argentina toma do FMI. Está no querer morar fora, querer ganhar em dólar, alisar o cabelo e comer no McDonalds.

Poderia listar outros inúmeros exemplos, mas resolvi pedir ajuda de Érico Veríssimo para explicar melhor o que é a colonização do ser. Após um índio da redução arrancar o próprio olho no início do livro O Tempo e o Vento, esse diálogo acontece:

"- Padre!
- Que é?
- Quando o índio morrer ele vai para o céu?
- Se seguires os mandamentos de Deus, se fores um bom cristão, irás para o céu.
- E se eu for para o céus, Deus me dá um olho novo?
- Claro, Inácio, claro. Deus te dará um olho novo.
Um curto silêncio.
- Padre, eu quero um olho azul como o de Pay Antônio".

Não é apenas desejar uma outra cor de olho, é negar a cor do seu. É negar a si mesmo enquanto criador de um padrão estético próprio e aceitar o padrão do colonizador. Até onde isso nos levou? Essa aceitação estética colonial está nas revistas, no Instagram, nos filmes, adoecendo as colônias que não alcançam esse padrão. A discussão sobre representatividade e sobre estética pode nos fazer refletir sobre padrões que as metrópoles impõem no mundo todo através da enorme indústria cultural que possuem. Porém, o mundo da moda vestir GG ou Pantera Negra ser um sucesso de bilheteria não podem ser o objetivo final dessas discussões.

A América Latina precisa de uma segunda independência, precisa encontrar-se consigo mesma, decolonizar seus (nossos) corações até que o único azul desejável seja a cor do céu, que é partilhada por todos nós.

Para saber mais sobre o Dossiê Temático "Decolonialidade" (Ed. 1/2019), clique aqui. 

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Graduando em História (FURG).
Tema de pesquisa: Abordagens Qualitativas.