Dossiê Temático ed. 1: A decolonialidade em Bacurau


Uma cidade fora do mapa, sem água, no meio de um nordeste distópico. Um grupo de habitantes que possui suas singularidades, caracterizações que são catalisadores de tipos sociais que todos nós reconhecemos. Uma ameaça que todos sentem rondando, até que explode o conflito que faz da caça humana apenas a primeira camada que define o confronto dos moradores de Bacurau com essa força externa.

Ao sair do cinema me perguntava se o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles poderia ser chamado de cinema com recorte Decolonial. Porém, com medo de estar vendo decolonialismo em tudo graças à quantidade de materiais que ando lendo sobre o assunto, se afastar do primeiro impacto foi necessário.

Dias depois tanto não passava a sensação que sim, ele pode ser um material decolonial, como também não saía o incômodo de ter assistido ao filme. O ponto de vista da produção é o da população de Bacurau, e era essa a dúvida que rondava a questão de conseguir classificar o filme dentro desse recorte epistemológico que tanto tem circulado pelas universidades nos últimos anos. Mas a cena final, quando a população enterra o seu problema, literalmente, mostra que sempre foi deles o ponto de vista da história.

O domínio da história, porém, não surge sem conflito. É a resistência que está na tela, resistência a várias formas de colonização – que invariavelmente resultam em mortes, simbólicas ou físicas. E nesse cenário de faroeste fantástico em meio ao cangaço moderno, existe até o oprimido louco pra ser opressor, o professor, a médica, o anti-herói mas, sobretudo, Lunga.

Lunga é a história. O que está ali, naquele corpo híbrido, é a narrativa a ser contada, já que irá mostrar, ao final, algo completamente descolado de toda e qualquer referência que possa existir do colonizador. Porém, ironia do conhecimento, ele também é isso pela ação da resistência que precisou imprimir como leitmotiv de sua vida.

E daí as contradições da própria decolonialidade. Ela também precisa da alteridade. Esse é fato posto, irreversível, e negá-lo seria entrar em uma briga sem fim com a realidade.

Não é possível negar a influências de bibliografias, referenciais, formas de construção científica junto a construção das mais variadas epistemologias dos últimos séculos. Isso nos constitui. Mas é possível compreender tal situação e, em seguida, buscar alternativas. Mais do que insistir na crítica, o esforço está em construir conhecimento a partir de novos objetos.

E quais seriam eles? Bacurau apresenta-se como realidade objetivada, instaurada na decolonialidade como forma de vida. Ela é porque só sabe ser.

Evidente que estudos como os de Paul Gilroy sobre o Atlântico já mostraram como se aplicaria tal construção epistemológica em um objeto, apresentando uma nova forma de organizar o conhecimento. Ou Edward Said já apresentou o tema do espelhamento entre as civilizações na obra Orientalismo, ainda na década de 1970. Mas fato é que ainda existe uma grande dificuldade em mostrar, na prática, na escrita, exemplos daquilo que seria uma forma de escrita decolonial.

E ao assistir Bacurau eu vi o que seria esse objeto sendo contado, esse ponto de vista que se forja da experiência da resistência, mas que também possui seus próprios métodos, balinhas a serem tomadas (ne?), discursos, relações, histórias e formas de conta-las. Domingas inverte a lógica medicinal, Pacote é o herói que nós conhecemos de perto, Plinio é a o ensino, e Lunga é a própria decolonialidade corporificada.

Acompanhamos um momento de luta, de conflito externo, e extremo, como quando chegaram caravelas, mas a importância maior está em saber que eles permanecerão ali. A história começa, de verdade, é quando sobem os créditos.

Para saber mais sobre o Dossiê Temático "Decolonialidade" (Ed. 1/2019), clique aqui.

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Felipe Nobrega Ferreira
Graduação em História (FURG),
mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG).
Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas