Dossiê Temático ed. 1: O final feliz pertence aos héteros

Longa Metragem "Tatuagem", de Hilton Lacerda

As produções cinematográficas voltadas ao público LGBT+ passaram por diferentes fases no que diz respeito a construção de narrativa. A pouco tempo atrás, as produções traziam como narrativa principal a tragédia de ser diferente. Os produtores desse tipo de material, quase sempre heteros, enxergaram no desejo de se sentir pertencente de pessoas marginalizadas, um nicho não explorado.

Construídas dentro de uma lógica cristã colonial, essas produções não refletiam de fato a complexidade das relações sociais estabelecidas por pessoas pertencentes a comunidade LGBT+. Exportavam as medidas de um ideal de relacionamento heterossexual aos relacionamentos homoafetivos. Desligados de quaisquer preocupações com a representatividade, mas ligadas a uma abordagem unicamente mercadológica. É claro que as pesquisas de diversidade e gênero não eram frequentes e, a desinformação e preconceito fomentaram discursos que são perpetuados até tempos atuais, entrando no imaginário popular e dando continuidade a um ciclo onde o público consumidor de discursos heteronormativos, pertencentes ou não a comunidade LGBT+, se apoiam nos ideias heterossexuais de existência, desqualificando e marginalizando os que não se encaixam nesse formato. Em uma análise superficial de alguém que consumiu filmes, series e curta metragens com essa temática na adolescência, existiu três fases que compunham as narrativas destas produções.

Fase 1 (1980 – 2000): reforço de estereótipos—promiscuidade, afetação, engraçado, fag bag, consumidor de moda, fraqueza, erótico, HIV, aterrorizar pessoas.

Exemplos: Queer as folk (2000), Meu querido companheiro (1989)

Fase 2 (2001 – 2010): reprodução do sofrimento gay | tragédia—o final trágico: suicídio ou solidão. DST. Espelhamento em filmes heteros.

Orações para Bobby (2009), Tempestade de Verão (2004), O segredo da montanha (2005), Another Gay Movie (2005)

Fase 3 (2011 — Atual): o público-alvo se tornou sujeito na produção de filmes com essa temática. Busca de uma representatividade maior e uma naturalização da sexualidade homoafetiva. Sexualidade como espectro.

Sexy education (2019), Tatuagem (2013), Skam (2015)

O fato é, a construção de uma pessoa esta centralizada em sua adolescência, os que em seu período de formação presenciaram a fase 1 e 2, por mais que entendam a abrangência e idiossincrasias de sua sexualidade, jamais sentirão o sentimento de pertencimento a sociedade de forma como um heterossexual presencia. Todos os finais tristes e trágicos estão gravados em seu subconsciente. Os filmes clichês de comedia romântica foram negados por anos a essa parcela da população, sendo sujeitada a assistir finais felizes para heteros e a morte eminente para si.

É possível aprofundar mais a análise, enxergar como até quando se tem um personagem LGBT+ em produções fílmicas os atores que os interpretam, são heteros, desprezando atores realmente pertencentes a comunidade que, geralmente, são desqualificados para papeis importantes. Ou ainda, as tentativas de reprodução de padrões comportamentais seguindo a ideia de ―American Pie‖, onde filmes imitam o comportamento hetero dito como ―festeiro‖ e o traspassa para os gays, destacando sua promiscuidade a fim de menosprezar, enquanto American Pie, recebe retorno positivo da massa popular.

Existe atualmente um enorme esforço em se acabar com essa lógica colonial sobre gênero e sexualidade, e plataformas como a Netflix e Amazon ganham espaço e se mostram de suma importância nessas novas narrativas. O final feliz da cinematografia, por mais distante que possa estar da realidade, pode dar sentido a ela. O final feliz não pertence somente aos héteros.


Para saber mais sobre o Dossiê Temático "Decolonialidade" (Ed. 1/2019), clique aqui.

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                                                           Matheus Braga Dias

Graduando em História (PAENE/FURG).

Tema de pesquisa: Análise de Discurso Cinematográfico.