Dossiê Temático ed. 2: Sobre sensibilidades e sentido de lugar




Pensar sobre sensibilidades, em um primeiro momento, é um convite a reviver algumas de minhas memórias (e sentimentos íntimos), a partir de um lugar que me constituiu, desde a minha primeira infância, e que ainda hoje faz parte de mim e da minha vida, exercendo poder e fascínio sobre os meus sentidos. Fecho os meus olhos e me vejo em frente ao mar, naquele mesmo tempo, diante daquela imensidão azul, um azul de todos os tons, e espumas brancas, uma praia mais silenciosa, sem o movimento que vemos agora, a praia em que eu acampava com a minha família, quando quase não se avistavam tantas casas como agora, onde meus únicos passatempos era caminhar (a perder de vista), correr e rolar naquelas dunas branquinhas e brincar na beira daquele mar todo.

Esse lugar, que ouso dizer, é meu lugar de paz (e pertencimento), me permite pensar sobre o sentido dos lugares. Lugares, em que construímos afetividade e que imprimem grande influência sobre a nossa vida, e sentidos, que vamos atribuindo a partir das nossas vivências e experiências, dos nossos entendimentos e até mesmo dessa consciência que vamos construindo sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre esse mundo que nos cerca. Aos lugares, atribuímos sentimentos e emoções, reunimos memórias e lembranças e é nos lugares onde nos relacionamos com o mundo e onde o mundo se relaciona conosco.

Ao criar laços afetivos e emocionais, criamos sentimentos de pertencimento, o que nos permite aprofundar nossa consciência de si mesmo e de nossa própria história. O lugar é da existência humana. É onde construímos nossa identidade, num constante pensar, sentir, exercer. É pelos lugares que os sujeitos se restituem em si mesmos e são os lugares, essenciais para compreensão do ser e da sua própria existência. Como afirma Sartre, não é possível não ter um lugar; existir é ter um lugar.

Seja em sua condição natural, seja povoado de elementos sociais e humanos, os lugares nos convidam ao encontro e nos levam a uma percepção marcada de complexidade e de um emaranhado de sensações, sentimentos e significados. “Não importa se é um local natural ou construído, a pessoa se liga ao lugar quando este adquire um significado mais profundo ou mais íntimo” (Oliveira, 2012, p. 12).

Os sujeitos e os lugares são constitutivos um do outro, de modo que ao agir sobre o mundo, agimos sobre nós mesmos. E pensar sobre isso, é pensar em um dos maiores desafios, a meu ver, que se põe ao campo da educação ambiental: a necessidade urgente de estabelecer novas formas de ser e estar no mundo e novas relações com o meio (e a partir daí com os outros, com o mundo e com nós mesmos), em busca de uma nova ética social, permeada pelo resgate de valores como sensibilidade, humanidade, solidariedade, alteridade, dentre outros.

Se entendemos que os sentidos dos lugares são indissociáveis do nosso ser, entendemos que estar em um lugar é um modo de pertencer ao mundo. Pertencer ao mundo é nos compreender como parte integrante de um todo. É compreender que nossas condutas interferem, positiva e negativamente, neste todo, em nós mesmos e nos outros. É compreender a nossa subjetividade e as inúmeras sensibilidades que nos cercam. E refletir sobre isso, nos conecta, acima de tudo, com os nossos lugares, aqueles que tem sentido ou muitos sentidos para nós, aqueles que nos constituem. Carregamos os nossos lugares e os seus significados, para além deles e de nós mesmos. O mar é o meu lugar “e o mar na alma acalma o caminhar [...]”.

Referências Bibliográficas:

SARTRE, Jean- Paul. O Ser e o o Nada. 13a ed. Petrópolis: Vozes, 2005. 

MARANDOLA JR, Eduardo; HOLZER, Werter; OLIVEIRA, Lívia de. Qual o espaço do lugar?: geografia, espitemologia, fenomenologia. São Paulo: Perspectiva, 2012.

O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.

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Graduação em Direito (FURG), 
especialização em Direito e Processo, 
mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) 
doutoranda no mesmo programa.
Tema de pesquisa: Políticas Públicas.