Dossiê Temático ed. 2: Temporal na praia


Foto: Felipe Nóbrega
Temporal é eletricidade. Temporal na praia é barraca virando, guarda-sol sendo arremessado por uma força que desconhece rumo, gente guardando a casa que estendeu na beira d ́água e correria de quem vem do mar fugindo dos raios.

A descarga dessa eletricidade sensível, esse clima de medo tão profundo invoca séculos da experiência humana, e vale lembrar uma frase que fala desse oceano de viração: O oceano constitui a relíquia daquela substância primordial indiferenciada que tinha necessidade, para tornar-se natureza criada, de que lhe fosse imposta uma forma. Esse reino do inacabado, vibrante e vago prolongamento do caos, simboliza a desordem anterior à civilização (CORBIN, 1989, p. 12).

O medo do caos, do oceano-dilúvio que varreu a Terra como punição, do mistério além-mar povoado por monstros e fins de mundo. São séculos e mais séculos que tornaram possível que o mar se transformasse em um dos grandes medos do Ocidente.

Jean Delumeau abre o seu livro mostrando o quanto zonas costeiras podem ser sinônimos de desconfiança, e do imaginário que aciona o caos. As populações costeiras, na Bretanha, por exemplo, comparavam o mar em fúria a um cavalo sem cavaleiro, ou a um cavalo que salta para fora de seu campo ou a uma égua enfurecida.A tempestade não era, portanto, considerada – e vivida – como um fenômeno natural. Na origem de sua demência, suspeitava-se facilmente de feiticeiras e demônios. (DELUMEAU, 1996, p. 48)

Então, quando o temporal na praia vem, ele não vem sozinho. Ele vem carregado dessa eletricidade histórica, que percorre um circuito do imaginário ocidental e nos leva direto ao universo sensível que faz com que o medo seja o motor de cada um dos nossos atos. Ninguém sabe o que está por vir junto no embalo de uma nuvem cinza que recobre o sol e torna noite o dia de verão. O vento se levanta quando menos percebemos, e se torna o sinal claro da fuga em massa que vai iniciar. 
O temporal está armado.

É nesse fragmento de tempo, o qual se insinua no primeiro sinal de sol coberto, seguido do vento e armação do cenário ideal do temporal que se instala a História. Encarnada no sujeito que está na praia, e que insiste na imobilidade de uma admiração profunda do que está acontecendo a sua frente, e que pode variar a cada um, ela preenche todos os elementos naturais em Cultura.

A experiência que se dá nesse momento, nessa transição da natureza que pode ser acompanhada por um rápido olhar de quem decidiu sair logo dali, ou por quem permanecesse observando o desdobrar dessa força, é incrivelmente didática para compreender o que pode ser uma sensibilidade ambiental. Somos reféns de uma historicidade que nos precede, uns dão a isso o nome de Cultura. E ela se dá no ato que é Natural, e independe das ações humanas iniciar ou encerrar o que está em curso. Essa é a imbricação, a conexão, que nos leva para o milésimo de segundo em que percebemos que “o tempo virou”.

Somos o gesto que faz a onda quebrar. A Cultura atravessa a Natureza primeiro com a irreversibilidade do corpo, depois com o sentido que é dado a essa experiência. E o que vem depois disso se desdobra no tempo, ganhando diferentes significados que se acumulam, se contradizem, complementam-se, mas, sobretudo comunicam uma forma dos sujeitos se relacionarem com os ambientes costeiros, assim como evidenciam o próprio fenômeno natural em suas especificidades.

Pensar a praia, pensar as formas de entender esse ambiente que me cerca ao ponto de me compor no mundo, é estar diante de todas as possíveis formas de experenciar ela. Gosto das histórias de dia de sol, em que tudo parece transcorrer com certa previsibilidade, mas talvez goste mais ainda das histórias incríveis que os dias de temporal na praia sugerem.

Leia mais sobre praias:
CORBIN, A. O Território do Vazio – A praia e o imaginário ocidental. São Paulo,
Companhia das Letras, 1989.
DELUMEAU, J. História do Medo no Ocidente (1300-1800). São Paulo,
Companhia das Letras, 1996.

O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.
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Graduação em História (FURG),
mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG).

Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.