Dossiê Temático ed. 2: Uma câmera velha produziu um novo reflexo do tempo em mim


Foto analógica de Rachel Hidalgo
Aproximar os olhos de um equipamento de registro e, a partir dele, criar imagens sobre aquilo que vejo é uma distração que já levo adiante há algum tempo. Mais nova, fotografava amigas sem qualquer pretensão, porém, na universidade descobri o quanto aquela linguagem podia ser poderosa em diversos sentidos: era possível convencer alguém a comprar algo... melhor que isso, era possível fazer com que alguém acreditasse.

Em quê? Em praticamente qualquer coisa. E o dia em que aprendi a manejar uma câmera, reconhecendo seus recursos e suas aplicabilidades subjetivas na nossa contemporaneidade, resolvi colocar a cabeça dentro da máquina e olhar para o mundo ao meu redor somente por meio de suas lentes.

Não é segredo. Conhecer esses sistemas de comunicação nos transforma em pessoas muito solicitadas por manejar ferramentas de convencimento, de controle e de sensibilização. E nós, como parte emocional desse aparato eletrônico, expostas a uma série de técnicas e maneirismos apreendidos por diferentes expressões, vamos nos tornando, também, engenhocas de discurso meio pronto. Hipersensibilizadas pelo público-alvo desejado, completamente imersas na cultura que ajudamos a constituir a cada imagem criada. Produção que é minha, mas que é, sem dúvida, reelaborada pelas referências que me atingiram.

E não precisa ser uma produtora de grande sucesso para entrar nesse ciclo. Com o simples fato de aprender a fotografar aniversários ou casamentos, por exemplo, passamos a desenvolver histórias teleguiadas, com rituais que se repetem alternando somente a personagem. O casal refletido em uma poça d’água que se transforma em uma bela imagem em tons de cinza. Padrinhos e madrinhas sorrindo, com as taças para o alto em brinde. Há algumas dessas no álbum digital daquele casamento que você foi e nem pareceu tão bonito assim. Porém, olhando bem para as fotos, foi bonito, né? Ou não. A nossa visão acaba contaminada e a magia do photoshop se efetiva na memória das pessoas. Mesmo aquelas que tiveram no momento presente.

Na bolha dessa categoria profissional, acreditamos estar alheias a grande rede de espectadoras diante da tela, nos esquecemos que é parte do ofício também flutuar nesse universo globalizante. Assim, mantemos os pés distantes do chão, mas convictas de que a objetiva está apontada na direção certa: para aquilo que pode ser reconhecível sobre qualquer coisa em qualquer lugar. Uma violenta generalização fantasiada de conexão. Sensibilização com potencial de mercado.

Dia desses, me aproximei de uma câmera analógica, tal experiência foi oportunizada por uma onda vintage pela qual sou facilmente captada. Foco bipartido, giro enroscado até regular o micro prisma, lente imunda. Mal conseguia alterar a profundidade de campo, provavelmente pelo endurecimento do tempo materializado no equipamento. Fui obrigada, então, a caminhar na direção do objeto que queria fotografar, olhei mais de perto e visualizei na minha câmara mental uma série de ângulos que poderia experimentar ali. Porém, infelizmente, eu só tinha nove poses. Quero dizer, tratava-se de um filme que só me dava nove chances de fotografar aquele objeto, assim, eu não podia lançar mão de uma metralhadora de cliques como de costume. Era preciso pensar bem antes de apertar o botão.

Já os outros mecanismos funcionavam. O problema é que eu precisava confiar nos meus conhecimentos sobre o assunto, afinal, não existia nenhum “preset” que me ajudasse a ver o que eu estava fazendo. Diferente das câmeras digitais, eu não recebia a informação técnica no visor, ou seja, o que eu via naquele momento não era, necessariamente, a forma que seria impressa no negativo. Essa insegurança me fez parar para pensar se eu, de fato, sabia lidar com a luz na minha frente.

Confesso que me dei um longo tempo para observar as coisas. Um outro tempo. Com calma, sem apressar a decisão de enquadramento e composição. Apertar o botão seria o fim da brincadeira, então estendi aquele momento o máximo que pude durante as nove vezes. Quando, enfim, me dei por satisfeita até o clique tinha som de ponto final: o giro do filme fotográfico no mecanismo da câmera que gera um estampido, a trilha sonora da passagem do tempo que, fora do meu controle, chega a um fim.

Ao retirar os olhos do equipamento, ainda não tenho as imagens na tela do computador. A experiência da câmera analógica nos obriga a tempos distintos ao que estamos acostumadas: tempo de pensar antes de fotografar; a sensação de marcar o filme com vigor; revelar, interromper, fixar no papel, lavar e secar. Nesse processo, não há como apressar as coisas com um dispositivo qualquer. Estranhamente, é preciso esperar.

Termino esse texto ainda sem conhecer as imagens que produzi naquele dia e a expectativa não traz uma ansiedade ruim, mas um desejo de descoberta, de revelação sobre a história que conto agora. Uma empoeirada câmera velha trouxe novos reflexos sobre o meu tempo e esse é um paradoxo que tem me ensinado sensações diferentes sobre o que faço e, me recordo, gosto muito de fazer quando sem tantas pretensões, como as antigas fotos das amigas. Então, tirei a máquina da cabeça e olhei em volta com os meus próprios olhos por um bom tempo que pude ver passar.

O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.
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Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG).

Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental em Zonas Costeiras