Hoje a culpa é sua, hoje a culpa é nossa, é de quem quiser, quem vier


Claudio Angelo é um jornalista especializado nas questões ambientais, mais do que isso, um profissional com carreira consolidada no âmbito das discussões climáticas desde o início dos anos 1990. Portanto, essa obra “Espiral da morte” pode ser considerada um retrato desse acúmulo, que não é só de gabinete, mas de quem também já foi a campo em expedições científicas.  

E se tem algo que desde esse período parece sobrevoar toda e qualquer discussão sobre esse tema, esse algo pode ser visto logo no primeiro parágrafo desse capítulo:

A noção de que um agente tão insignificante quanto a humanidade seja capaz de um efeito tão grandioso quanto alterar o funcionamento do clima da Terra ainda é difícil de assimilar para muita gente (p. 57).

Chamando de “partitura básica do clima” (p. 66), compreender o cenário contemporâneo é uma necessidade social, e por isso sua linguagem é bastante simples em mostrar que o importante na apreensão das mudanças climáticas é perceber três tipos de alterações: mudanças na quantidade de radiação solar que chega ao planeta e como ela se distribui entre os hemisférios; maneiras como a superfície e atmosfera rebatem os raios solares e mudança na forma como a radiação infravermelha viaja da Terra e volta para o espaço.

Como a gente observa, é uma dinâmica que está em jogo de cunho científico, com uma linguagem que precisa de certo grau de abstração mínimo, e o esforço do autor é trazer isso à tona. Só que não esmiuçando parâmetros, mas acentuando o nosso papel dentro desse ciclo permanente que afeta a Terra, justamente, pelos nossos comportamentos.

E aí mais um diferencial surge no seu texto, ao inverso do alarmismo, da culpa que deve recair nos ombros dor seres humanos, ele resolve nos inserir nos cálculos, e mostrar o quanto o desligamento da nossa presença dessa dinâmica impede que “a conta feche” de como o planeta está hoje em relação as mudanças climáticas.

Hoje a influência humana no balanço energético da Terra é muito nítida e equivale a 2,29 watts por metro quadrado. O assustador é que em 1980 ela era de 1,25 watt por metro quadrado e, em 1950, metade disso (p. 71).

Ao acentuar o nosso papel, Claudio Angelo não se preocupa em nos convencer com uma resposta definitiva, antes disso, ele também coloca em tela o papel da Ciência em sua incapacidade de dialogar com a sociedade civil, o que dá margem para desconfianças – que ele não diminui, mas também insere na discussão sobre o tema das mudanças climáticas. Por isso o exemplo, talvez o melhor exemplo, seja o da criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que foi criado em 1988, quando foi preciso uma onda de calor recorde, e uma “tempestade de mídia” (p. 73), para que o assunto entrasse na agenda mundial de forma irreversível no âmbito de políticas e pesquisas internacionais voltadas para o tema.

O alcance de explicações científicas foi superado pela sensibilidade que foi mais forte, e criou o movimento, fez emergir a discussão que estava circunscrita em laboratórios.

O esforço do autor em historicizar esses movimentos, esses avanços do campo científico ao longo da segunda metade do século XX, aliado às tensões humanas em relação ao assunto – e como isso está sendo sentido – parece ser o que há de melhor nesse capítulo. E até os negacionistas do clima ganham espaço, pois são mapeados, e de certa forma, compreendidos.

O IPCC tem pelo menos 95% de certeza que os humanos são responsáveis por mais da metade do aquecimento da Terra observado nos últimos cinquenta anos (p. 79).

A ilustração disso surge de mais casos de eventos extremos e suas intensidades inéditas, seus alcances impossíveis de serem negados. E o papel do IPCC é fundamental no seu argumento, pois ele acompanha com dados, e uma perspectiva de médio e longo prazo, como os elementos estão conectados. E o Acordo de Paris surge como último elemento do capítulo demonstrando, mais uma vez, a importância dessas reuniões de pesquisadores em função de elementos científicos, mas, sobretudo, engajados em dialogar com a sociedade que precisa ter acesso a um conjunto de informações que reflete sua própria experiência na Terra.

E é de forma delicada que o jornalista explora isso, como se alinhavasse ideia após ideia científica um consenso necessário, ou um beco sem saída ao leitor que está diante do espelho. E ele não deixa ninguém de fora, explora as ações humanas correlatas com o aumento da emissão de gases, e o quanto isso está sendo captada pelos relatórios do IPCC. E o que surge no final é um convite para uma festa macabra que já estamos fazendo parte há muito tempo.

...  o carbono que a humanidade já emitiu tem transformado o clima em várias regiões do mundo. Essas transformações tem sido mais agudas no Ártico – e isso pode ser um problema para todos nós, no Brasil inclusive (p. 85).


Graduação em História (FURG),
mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG).
Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.