O Clima: a história da chuva e do bom tempo


Ladurie inicia o artigo dissertando brevemente sobre o histórico dos historiadores do clima na Europa, apontando as suas fontes de análise e mesmo algumas metodologias de pesquisa. Em especial, o autor demonstra como técnicas de investigação ligadas às ciências da natureza, como a dendrocronologia[1] e a fenologia[2] são fundamentais para que a história do clima possa ser escrita de forma segura. Este primeiro movimento já aponta como tal temática da história está intrinsecamente conectada às demais ciências e principalmente ao conceito de interdisciplinaridade.

Evocando Paul Vayne, Ladurie afirma que o objetivo dos historiadores do clima nada tem a ver com contar a história da humanidade através desta importante temática- apesar de ser uma maneira interessante de fazê-la - mas sim de auxiliar nas previsões meteorológicas e climáticas do futuro.  O autor associa as fomes e epidemias do passado com o clima do planeta. Este recurso argumentativo parece querer reforçar a importância do papel dos historiadores do campo da climatologia, uma vez que nossa profissão foi por muito tempo menosprezadas pelos cientistas do clima.

O artigo segue em um debate sobre os principais trabalhos e metodologias de abordagem do clima em uma perspectiva histórica, não deixando de lembrar sempre como os historiadores podem auxiliar a preencher as lacunas nos registros da história do clima. De fato, Ladurie volta a ideia de que como o trabalho dos meteorologistas é prever o clima do amanhã, pouco podem, ou mesmo sabem, como compreender o clima do passado e entender como este passado pode de fato auxiliar a prever o futuro.

O texto passa a associar o sucesso das colheitas ou mesmo o fracasso de culturas agrícolas com as chuvas e secas do passado. Fica evidente como o clima, a chuva e o bom tempo possuem uma influência enorme no desenvolvimento da economia e mesmo do comportamento dos povos antigos. Essa ideia de que as chuvas ou a falta delas acarretam um impacto no decorrer da história pode parecer banal e óbvia hoje, mas não era assim quanto este texto foi escrito.

Ainda debatendo sobre os métodos, ao seguir escrevendo sobre a importância da dendrocronologia, o autor nos leva a refletir como a preservação, tanto da natureza, quanto dos monumentos e prédios históricos se mostra importante para que tal metodologia de analise possa ser frutífera.  Uma vez que se mostra necessário estudar os anéis das árvores para compreender o clima, faz-se necessário tanto a preservação dos bosques e florestas antigas, como os objetos construídos com a madeira das árvores seculares.

Esta reflexão não está expressa no texto, não obstante ser inerente à discussão. De fato, o que é expresso no artigo é a importância que tal método pressupõe para a construção de pesquisas sob a perspectiva da longa duração. Além disso, Ladurie aponta que este tipo de análise pode ser mais frutífera ao campo da arqueologia do que da história.

Já encaminhando para o final, o texto passa discorrer sobre formas de entender o clima, o ciclo das chuvas e a influência dela nas atividades humanas por outras perspectivas, em especial através do vinho. Buscando traçar paralelos entre a qualidade do vinho e o clima, os estudos nesse campo podem oferecer perspectivas climáticas sobre regiões onde não é possível levantar dados através de arquivos ou da natureza.

O artigo indica a ideia da necessidade de cruzar todos os dados e métodos explicitados, no tocante a torná-los concisos e rigorosos o suficiente para que possam ser generalizados. A ideia é que os métodos individuais sejam triangulados com outros se possíveis. Tal prática visa aperfeiçoar as metodologias singulares para que estas sejam passíveis de rigor quando aplicadas de forma solo.

Este artigo é, no fim, mais que um texto que aborda metodologias de análise do clima no passado, um manifesto sobre a importância da perspectiva histórica para outras ciências, nesse caso a do clima. Ladurie escreve em uma época em que a história interdisciplinar ainda estava se afirmando no mundo, e as novas abordagens fora da ciência política e econômica não eram tão bem vistas pelo campo da história. Este artigo é um marco para a historiografia e, sem dúvidas, um dos textos que fundam a história ambiental europeia.


REFERÊNCIAS

LADURIE, Emmanuel Le Roy. O clima: a história da chuva e do bom tempo. In: LE GOFF, Jacques. História: Novos objetos. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1995.

Acesse o texto original aqui.




[1] A dendrocronologia é um método científico de datação da idade de uma árvore baseado nos padrões dos anéis em seu tronco. É estabelecida de acordo com o clima das épocas, e por isso, torna-se um grande método de datação absoluto dos climas passados. (Wikipédia)
[2] Fenologia forma contraída de “Fenomenologia”, é o ramo da Ecologia que estuda os fenômenos periódicos dos seres vivos e suas relações com as condições do ambiente, tais como temperatura, luz e umidade. (Wikipédia)



Graduação em História (FURG) e mestre em Educação Ambiental (CAPES/FURG).
Tema de pesquisa: História Ambiental.