Resenha: Eco(s) da História

As questões ambientais estão cada dia mais presentes em nosso cotidiano, seja nos meios de comunicação: jornais, internet, rádio; seja em nossa vida prática: com enchentes cada vez mais constantes e estações climáticas “desreguladas”, entre tantos outros fenômenos naturais. Não é por menos, nosso estilo de vida mediado por nosso sistema econômico (capitalista) vem causando um desastroso e irreparável impacto no meio ambiente, em nossos sistemas sociopolíticos e culturais. Em relatório feito pelo IPCC (Intergovernamental Panelon Climate Change) de 2001, a concentração de CO² atmosférico aumentou, desde 1750, mais de 31%, sendo que 50% desses valores ocorreram nos últimos cinquenta anos, quando houve também um acréscimo significativo de combustíveis fósseis nas atividades socioeconômicas dos seres humanos (MARENGO & SOARES, 2003). Segundo Arthur Soffiati em seu artigo Algumas palavras sobre uma teoria da eco-história (2008, p. 14):

A partir de 1970, cresceu a percepção de uma crise ambiental planetária manifestada por esgotamento dos recursos naturais não-renováveis, particularmente os fósseis, sobre os quais apoiaram-se a indústria e o sistema de transporte automotor; pelas diversas formas de poluição (da água, do ar, do solo, dos alimentos, dos organismos vivos, inclusive do ser humano); pela destruição gigantesca dos ecossistemas (rios, lagos, mares e florestas); pela extinção de espécies; pelo aquecimento global; pela distribuição desigual de recursos entre os Mundos Norte e Sul e no interior de cada Estado-Nação; pelas unidades geradoras de energia e industriais perigosas; pelas mudanças climáticas provocadas com a emissão de gases e com a destruição do equilíbrio dos sistemas, entre outras.


Não há para onde fugir. Toda esfera da vida humana e não humana sofrerá com os impactos dessas transformações (causada pelo próprio ser humano). Será necessário dispor de um empreendimento incisivo em ações mitigatórias para garantir a qualidade de vida e sobrevivência, principalmente das civilizações mais pobres. Nesse sentido, a ciência surge como uma opção, como um dos caminhos mais confiáveis que podemos seguir para lidar com essas transformações. Inclusive, ela existe para nos ajudar a conhecer o mundo em que vivemos e construir ferramentas para responder questões e solucionar problemas – por meio de políticas públicas, projetos de extensão, pela escola e movimentos sociais - da nossa realidade imediata. Esse é um princípio básico entre a comunidade científica, entretanto, não é uma informação disseminada entre os conhecimentos populares da comunidade civil, e por isso se faz fundamental, sempre que possível, a reafirmação de tal informação. Soffiati (2008, p. 15) nos diz que:

Para as ciências humanas da natureza não-humana e das antropossociedades, esta nova realidade está a conduzi-las em direção ao adjetivo ambiental ou ao radical eco. Cada vez mais se fala em física ambiental, química ambiental, biologia ambiental, demografia ambiental, economia ambiental, sociologia ambiental, ecopolítica e história ambiental ou eco-história.


Entre tantas disciplinas científicas responsáveis por estudar e desenvolver medidas para lidar com os impactos deixados pelas transformações climáticas em nossa relação com o meio-ambiente, a História também seguirá por esse caminho. Vale ressaltar que - assim como as diversas áreas da ciência – a História, busca responder questões do nosso presente e nos ajudar a entender nossa realidade imediata. Indo de acordo com uma linha de “temas” que se alteram dentro da própria historiografia, por exemplo: desde os anos 70, as pesquisa sobre cultura, gênero e raça ganharam força e hoje despontam como tendências. As questões ambientais também vêm conquistando seu espaço dentro da História, buscando responder as questões geradas pelo impacto das mudanças climáticas acelerada pelo próprio ser humano, ainda que esse campo de interesse lute para se estabelecer dentro da comunidade de historiadores.

Essa resistência parte de dentro do núcleo da própria disciplina e de seus praticantes. Sendo a história uma ciência humana, seu principal protagonista sempre foi o ser humano e o impacto de suas ações no espaço e no tempo. Esse posicionamento vem se perpetuando desde o surgimento da História (científica) com o Positivismo e o Historicismo, considerada a primeira revolução da historiografia, e a Escola dos Annales/História Nova, a segunda grande revolução historiográfica. Segundo Donald Worster (2008) (eco-historiador norte-americano), a Eco-História representaria a terceira grande revolução da historiografia. Mas essa mudança enfrenta e enfrentará alguns obstáculos. Conforme Soffiati (2008, p. 14):

Sem perceber o vínculo entre seus respectivos sistemas filosóficos e científicos como os interesses de uma economia de mercado emergente, Galileu, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, quatro expoentes de uma legião de pensadores, conceberam uma natureza mecânica (e não orgânica) dissociada do ser humano e de sua sociedade, mas colocada a seu serviço como escrava. O Iluminismo sofisticou o mecanicismo e exaltou, com raríssimas exceções, o poder humano sobre a natureza. As concepções organicistas passaram a viver em semiclandestinidade, usando o manto do obscurantismo, como se conservassem os últimos resíduos de magia e de superstição.


Nesse sentido, para se estabelecer, a eco-história e o eco-historiador deverão entrar em um embate com algumas epistemologias que nascem junto com o pensamento europeu moderno – e com grande impacto na História- o antropocentrismo (que desliga o ser humano da natureza e o coloca como centro de interesses nas produções cientificas), o cartesianismo e o mecanicismo, tão fortemente enraizados na ciência moderna.

A natureza não-humana sempre esteve presente nas produções históricas, mas sempre ocupando um papel secundário (ou mesmo nem sendo levado em conta) nos processos. Os historicistas e positivistas não negavam a natureza não-humana propriamente dita, mas ela sempre ocupava o papel de “palco” das ações dos seres humanos (SOFFIATI, 2008). Já os historiadores dos Annales, abordaram a natureza não-humana como um elemento que faz parte da vida humana, não conferindo a ela o papel de protagonista, mas como recursos que davam condições a vida humana (SOFFIATI, 2008).

Mais próximo da Eco-história, a história ambiental vem defendendo um protagonismo cada vez maior da natureza não humana em sua relação socioeconômica, política e cultural com os seres humanos, estabelecendo um diálogo cada vez maior com as ciências sociais e as ciências da natureza. Esse movimento garante que a natureza não-humana deixe de ser um espaço inerte, apenas um depósito de resíduos e um estoque inesgotável de recursos.

Em um movimento muito similar, a Eco-história vem se propondo ouvir as mensagens que a natureza vem nos dizendo (de forma não verbal) ao longo do tempo. Segundo Soffiati (2008, p. 16):

Trata-se dos estudos concernentes às relações das sociedades humanas com um determinado ecossistema, ou com um conjunto inter-relacionado deles (bioma), ou, ainda, com uma região apresentando relativa unidade ambiental (eco-região), considerando também a natureza não-humana como um agente histórico que “fala” de alguma forma ante as relações que se estabelecem entre ela e as antropossociedades.


A grande mudança seria considerar a natureza como um sujeito-ator que deixa a marca de suas ações no espaço e no tempo. Outro eco-historiador, Donald Worster, propõe no mesmo sentido, que a natureza não-humana produz sua própria historicidade, e que um de seus únicos integrantes tenha logrado na construção de uma historicidade própria: O Homo sapiens. O autor ainda discorre sobre as relações mais profundas do sapiens com o meio ambiente:

A profundidade, neste caso, chega a atingir a estrutura orgânica do ser, procurando explicar de que forma as transformações ambientais levaram um grupo de primatas a sofrer mudanças anatômicas na coluna vertebral, na ampliação da caixa craniana e do cérebro, na liberação das mãos e na adaptação dos pés à marcha ereta. Neste nível, são estudadas as relações interretroativas de ecossistema, espécie, indivíduo, sociedade e cultura, tanto para dimensionar o papel dos ecossistemas quanto o da cultura no processo de seleção natural (WORSTER, 1991, p. 202)


É possível notar uma preocupação dos eco-historiadores em transcender o debate com estudos que não foquem somente nas relações geradoras de desequilíbrio entre sociedades humanas contra a natureza não-humana. A primeira etapa da eco-história, ao focar suas pesquisas somente nas relações produtoras de desequilíbrio, tinha por trás disso todos os outros elementos que clamavam por serem ouvidos. Esse foco somente nas relações produtoras de desequilíbrio, colocava a natureza não humana em pauta somente nos dramas e tragédias gerados pela irresponsabilidade humana.

Soffiati apresenta ainda alguns fundamentos para a construção de um quadro teórico para a eco-história: (I) O que diferencia a Eco-história das histórias das relações materiais e culturais é a implementação da natureza não-humana agente/ator da história. Para ele, os domínios físico, químico e biológico têm um papel ativo na história, e não são mais vistos com agentes passivos, inertes ou inanimados. A Eco-história estabelece a interação entre o mundo natural e cultural, seja de forma racional, dialética ou dialógica, o que pressupõe uma continuidade entre natureza e cultura. Desse modo, a natureza não-humana tornou-se produtora de fontes elaboradas por sua própria dinâmica que registram suas interações com as sociedades humanas; (II) A mistura epistemológica entre natureza e cultura tem no cérebro humano o ponto de ligação.   A natureza não-humana, em seu processo evolutivo, produz, entre muitas de suas criações, uma estrutura cerebral complexa. Emergência da vida, dos animais, dos vertebrados, dos mamíferos, dos primatas e dos hominídeos, este cérebro também gera emergências: a mente, o inconsciente, a memória, a consciência central e ampliada, o pensamento, a cultura, as representações. Eis porque a eco-história procura, na estrutura e no funcionamento do cérebro humano, os processos de formação das representações; (III) Ao contrário do que pensa o senso comum, até mesmo entre historiadores, a eco-história não alija o ser humano de suas investigações nem o constrange a esquemas reducionistas e deterministas; (IV) Sem se preocupar se a classificam como moderna ou pós-moderna, a eco-história não se alimenta da intolerância da Modernidade nem se pulveriza na atomização da Pós-Modernidade. Em seus postulados teóricos mais abrangentes, ela cultiva a razão dialógica e não tem a mínima intenção de deter a verdade do seu tempo. Trata-se de uma abordagem possível da realidade que se constitui sobre a argumentação, não sobre o racionalismo monológico; (V) Os fragmentos de saber – ciências ou disciplinas científicas – criados pela Modernidade para melhor compreender, analisar e explicar o real conduziram a uma verticalização do conhecimento em detrimento de sua horizontalidade. Sabe-se cada vez mais a respeito de cada vez menos. Ao animar a natureza não-humana, transformando-a em agente, personagem, protagonista, a eco-história se viu obrigada a recorrer a outros campos do saber para melhor elucidar as relações das antropossociedades com os ecossistemas. Amulti e a interdisciplinaridade mostraram-se insuficientes para tal empreendimento. Só mesmo a transdisciplinaridade revelou-se promissora para essa análise abrangente. A transdisciplinaridade passa a ser o método que melhor se ajusta à compreensão e à explicação dos sistemas complexos, pois revoluciona o saber, reordena os diversos objetos, faz ruir barreiras, incorpora a subjetividade, introduz a complexidade e repele o determinismo. 

Afinal, pra que serve a eco-história? Segundo as tendências historiográficas atuais e a comunidade de historiadores, para nada, quando muito para explicar processos. De acordo com Soffiati, a eco-história, diante da crise climática e todas as implicações que traz, além da crise que também afeta esse campo do saber, explica e ajuda a mudar a sociedade, ascende o domínio das relações sociais de todos os tipos para adentrar no domínio das relações das antropossociedades natureza não-humana, exaltando a existência de um terceiro elemento na produção do conhecimento – a natureza – sempre vencedora no final.

No âmbito do pragmatismo, a eco-história mostra o que foi e o que é, permitindo que o eco-historiador contribua para a restauração e a revitalização de ecossistemas nativos e transformados. Ela permite a compreensão de intervenções pretensiosas da Modernidade na natureza e a sua recuperação em termos pré ou pós-modernos.

Concluindo, a eco-história ainda tem um longo caminho a percorrer para conseguir se estabelecer como um campo do saber realmente significativo, agora dificilmente haverá campo fértil para lograr sucesso. Para isso, seria necessária uma mudança curricular nos cursos de História e em nível institucional, também uma mudança drástica nas demandas da sociedade civil e principalmente política.

Levando em consideração o momento atual, em que na esfera administrativa do Brasil se encontra: um governo que nega as mudanças climáticas e não tem comprometimento algum com políticas públicas que garantam a preservação do meio ambiente, e no sentido contrário da preservação, propõe políticas que flexibilizam as leis já existentes, garantindo o mínimo de proteção à natureza não-humana em detrimento da exploração da terra (avanço da agropecuária e do garimpo ilegal em terras amazônicas, por exemplo), dificilmente teremos uma mudança significativa, que garanta a transformação do comportamento da sociedade civil e também na produção de conhecimento, que quebre com os padrões estabelecidos, desde a fundação da ciência moderna como a conhecemos.


Referências:

ALMEIDA, Jozimar Paes de. A extinção do arco-íris: ecologia e História. Campinas: Papirus, 1988.

BATESON, Gregory. Natureza e espírito. Lisboa: Dom Quixote, 1987.

BOURDIEU, Pierre. Sobre o poder simbólico. In: _____. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

BURKE, Peter. Abertura: a Nova História, seu passado e seu futuro. In: _____. (Org.). A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992.

MARENGO, J.A. (coord.) (2006) - Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade. Caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do Século XXI. Ministério do Meio Ambiente. Brasília, DF, Brasil. ISBN: 8577380386. Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/livro%20completo.pdf    

SOFFIATI, Arthur. Algumas palavras sobre uma teoria da eco-história. In: Desenvolvimento e Meio Ambiente.n. 18 Paraná: Editora UFPR. jul./dez. 2008.

WORSTER, Donald.Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos. n. 8. Rio de Janeiro: Associação de Pesquisa e Documentação Histórica, 1991. 

Acesse o texto original aqui.




Graduando em História (FURG).
Tema de pesquisa: Pedagogias Decoloniais.