Dossiê Temático n. 3: Como aconteceu a educomunicação na vida de um professor com seus alunos em um bairro de periferia



- Sor, mandamo pro senhor o áudio

- Tá bom. Recebido.

- Depois diz pra nós o que o senhor achou

- Claro. Fica frio. Eu só tô meio atrapalhado agora, mas na noite já vou chegar emcasa e ouço com calma.

- tmj

- Cara, que isso? Vocês mataram a pau

- Sério sor? O senhor gostou?

- Cara... cara...

- A gente tava achando que bahhh nem eras...

- Mas então, cara, vocês são muito bons! De onde saiu isso?

- Da nossa cabeça, a gente meio que pensou em fazer um bagulho do nosso jeito

- Tá lindo demais, cara... isso comunica muito. Assim, isso chega nas pessoas

- Tá do nosso jeito

- Cara, convidaram vocês pra participar de um evento, esse terceiro programa ficou muito bom mesmo, tipo... a cada programa tá ficando melhor, vocês tão pegando um troço que dá pra ver que é orgânico, que é de vocês, e que é bom de ouvir. É bom de ouvir por isso.

- A gente faz pros negão sor, então acho que era isso... vamo fazer mais um aqui

- Façam sim, dá essa organizada no material melhor, tentem ver o lance de não falar tanto um por cima do outro, e cara... de resto, cada vez que eu ouço e vejo que vocês criaram meio que um formato

- Então gente, junto com o sor a gente começou a gravar esses podcast. No início, quando o sor falou a gente nem sabia o que era podcast, mas sabia fazer aquilo ali do nosso jeito, sabe? Então ele pediu, a gente mandou cabreiro, achando que ele não ia gostar. E quando a gente viu ele gostou e fomos indo, gravando. Tamo aí com programas sobre um monte de assunto, e a intenção é dar o nosso recado, aqui da Zona Oeste, que acham que não tem nada de bom, e daí a gente vai e mostra o que tem. E as pessoas gostam, a gente fez umas rede social, as pessoas pedem temas, a gente dá aquela interagida, sabe?

- Então gente, eu sei que quando eu vi eles me mandaram um material desses. Eu ouvi, fiquei apavorado! Aquilo era muito diferente. Tinha alguma coisa ali que eu sabia que era diferente, era muito potente. Era uma forma de se comunicar com a comunidade de uma forma que eu nunca tinha visto nesse tempo dentro do Magistério. Eles realmente chegavam nas pessoas, e o meu papel basicamente era mediar uma organização básica, propor alguns debates, e aos poucos eles mesmos foram tomando conta do processo todo. Tipo, eles pensam as pautas, algumas vezes eu forçava e não adiantava, eles torciam o nariz e quando apareciam era algo muito melhor do que a minha ideia. Como não ficar impressionado? Eles meio que foram construindo um formato deles, o que cada um fazia, como produziam e como divulgavam. Tipo, todo o processo tava ali, sendo criado e recriado por eles.

- O sor nos disse umas coisa pra ir arrumando, a gente meio que ouvia e dava essa arrumada. As vezes o cara fazia, as vezes a gente achava outro jeito. O Mixtape foi aprendendo com os Negão.

- Sim, e tudo com um celular! Eles três tinham, tava ao nosso alcance, ao deles, seria fácil passar o conteúdo entre nós, e não precisa de internet. O que eu faço online é colocar na plataforma que toca podcast e tal... mas é uma ferramenta que tá na nossa mão em aula, na deles, que ficam grudados e eu tenho que achar um jeito daquilo se transformar em algo ao meu favor no que eu quero fazer. Como? Bem, daí é ir testando formato, as vezes dá certo, as vezes não, e no caso deles o formato de áudio foi uma baita sacada. Eles se expressam muito bem, consegue organizar as ideias, achar sentidos, produzir conteúdo próprio. Sabe, quando eu paro e penso é algo muito próximo de uma autonomia mesmo, de um diálogo entre eu, eles e os meios, e isso chega. Isso chega em outro lugar no processo de ensino-aprendizagem.

- Bahh Sor, o senhor sempre com aqueles papo de branco

- Tá... mas vocês gostaram? Se sentiram bem? Acho que foi massa, eles ouviram muito vocês, foi a hora que todo mundo parou pra ver. Ainda mais que toda a turma de vocês apareceu pra meter uma pressão.

- Sor, nos mandaram uma mensagem pra participar de um documentário e tal... que é isso?

- Deixa eu ver aqui...

- Bah... sério? Vamo gravar um documentário, tipo... nós? Vão ouvir e tal o que a gente faz? Vamo ter que fazer um programa ao vivo então?

- Sim

- Temo um massa aqui, sobre lixo aqui na vila, podemo fazer esse!

- Guris, vocês foram selecionados!

- Sério?

- Sim, vocês vão ganhar um prêmio pelo programa que vocês gravaram ao vivo. Ele foi selecionado, agora é ir lá buscar o caneco!

- Tamo aqui pra representar a Zona Oeste, agradecer todo mundo nos apoiou e que os Negão ta aí.


Título: Lixo na Cidade / Modalidade: Vídeo/Podcast
Linha de pesquisa: Educação Ambiental Formal
Artista: Jornal dos Negão / Christiano Correa / Charlom Rodrigues, Cristian Machado
Link> https://www.youtube.com/watch?v=zaaqEyqW0NQ

O vídeo justifica-se neste eixo por tratar-se de um projeto idealizado dentro da sala de aula, um podcast protagonizado por alunos(as) que, inspirados por uma atividade sobre educomunicação, passaram a desenvolver seu próprio programa na internet, tratando de assuntos diversos que cercam as suas realidades. Gravado com a ajuda de um celular, pesquisa e muita criatividade os três adolescentes recebem convidados já não apenas no ambiente escolar, onde possuem a ajuda de um professor, mas também em outros locais para os quais são convidados devido ao reconhecimento de seu trabalho.

Acesse o dossiê completo aqui

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Felipe Nobrega Ferreira
Graduação em História (FURG), 
mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG).
Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.