Dossiê Temático n. 3: Todos somos um

Uma mulher olha amorosamente para seu ventre, enquanto o segura e acaricia. Ela é forte e poderosa. De seu corpo se estendem e se solidificam raízes e brotos, em uma interconexão com a natureza. Ela é a própria natureza. A mãe, que carrega em si a vida, em suas diferentes formas. Gaia, a Mãe Terra ou a “Deusa-Terra”, a personificação do planeta.

Gaia carrega a vida, é a potencialidade geradora, a abundância, a frutificação. Gaia é a Mãe de todos os seres vivos e é um dos primeiros elementos que surgiu no despontar da criação, junto com o Ar, o Mar e o Céu, segundo nos conta a Mitologia Grega.

Para James Lovelock[1] , Gaia, a Terra, é um organismo vivo, que respira, se autorregula e que possui a capacidade de manter e alterar suas condições ambientais, se mantendo em equilíbrio e em condições propícias de sustentar a vida. Se de um lado, seres vivos de diferentes espécies estabelecem conexões entre si, de outro, estes mesmos seres estabelecem conexões das mais diversas com a Mãe Terra, de tal forma que, estas tantas conexões vêm causando, ao longo dos tempos, diferentes impactos nesse imenso organismo vivo e consequentemente, uns nos outros. Conseguirá Gaia se manter em equilíbrio e em condições de sustentar a vida como conhecemos?

Sequer poderíamos imaginar em novembro de 2019, quando ocorreu a I Mostra Latino Americana de Arte e Educação Ambiental (MOLA), que estaríamos vivenciando o que ocorre desde março de 2020. Enfrentamos um vírus que ameaça dizimar a vida humana. Diante disso, uma reflexão tem me acompanhado desde então: qual o impacto da uma vida?

A partir de uma zoonose, talvez sendo o morcego o vetor ou ainda outro animal silvestre, um único ser humano foi capaz de espalhar um vírus pelo mundo. Dados apontam que mais de 600.663 pessoas já foram contaminadas. Isso[2]  demonstra a invasão constante de habitats selvagens e a venda de uma variedade de animais silvestres o que facilita não apenas a mutação de diversos vírus, mas também a contaminação, como já ocorreu anteriormente com o Ebola, o HIV e a SARS. Para além disso, a nossa interconexão está muito mais do que comprovada. Somos todos um.

Se voltarmos o olhar para a ilustração Gaia, que nos clama pelo cuidado e o respeito às diversas formas de vida, o Corona vírus nos convoca a refletir sobre a nossa humanidade. O que nos faz humanos? Como estamos tratando a vida e todos os seres que compartilhamos este planeta? Onde está nossa capacidade de parar e olhar para além de nós mesmos? Onde está nossa capacidade de acolher o outro na sua diferença, como legítimo outro? Por que nos distanciamos tanto do que verdadeiramente importa?

Gaia está doente e nós também. E Gaia nos pede socorro e suplica pela sua cura. De onde vem a sua cura? “Somos, de certa forma, seu sistema nervoso”, nos dirá Lovelock, e se somos todos filhos de Gaia, é de nós que vem essa cura? E ao curá-la, não estaríamos também nos curando dos males que afligem nossa espécie?

É urgente a necessidade de construir outras formas de ser e estar no planeta, de reinventar a vida, que não é possível sem perceber (e reconhecer) nossa responsabilidade diante da Mãe Terra e de nós mesmos. Se não olharmos para nós, se não considerarmos que somos parte de um todo muito maior e que estamos sim todos interligados, e que, assim sendo, precisamos fazer a nossa parte pelo bem comum, corremos sérios riscos, de quiçá, continuar vivendo.


[1] James Ephraim Lovelock é o cientista britânico que em 1979 elaborou a Teoria de Gaia. Segundo a teoria, o planeta Terra é um imenso organismo vivo, capaz de obter energia para seu funcionamento, regular seu clima e temperatura, eliminar seus detritos e combater suas próprias doenças, ou seja, assim como os outros seres vivos, um organismo capaz de se autorregular. Isso quer dizer que os organismos bióticos controlam os organismos abióticos, de forma que a Terra se mantém em equilíbrio e em condições propícias de sustentar a vida. Além disso, a teoria sugere também que os seres vivos são capazes de modificar o ambiente em que vivem, tornando-o mais adequado para sua sobrevivência. Dessa forma, a Terra seria um planeta cuja vida controlaria a manutenção da própria vida, por meio de mecanismos de feedback e de interações diversas. Fonte: MORAES, Paula Louredo. "A hipótese Gaia"; Brasil Escola. Disponível em:
 https://brasilescola.uol.com.br/biologia/hipotese-gaia.htm. Acesso em 19 de março de 2020.

[2] Números atualizados em 28 de março de 2020. Fonte: https://brasil.elpais.com/


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Ilustração: Luciano Lima
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Graduação em Direito (FURG), 
especialização em Direito e Processo, 
mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) 
doutoranda no mesmo programa.
Tema de pesquisa: Políticas Públicas