Pequena história da fotografia


Em relação a fatos históricos, a fotografia apresenta uma maior clareza do que quando comparada a história da imprensa, por exemplo. A fixação da imagem em placas que proporcionassem a verdadeira fotografia, era desejo de muitos e vários pesquisadores procuravam realizar, em um mesmo período histórico, este feito. Niépce e Daguerre foram os primeiros a conseguir tal feito, claro que com uma ajuda financeira do estado, que logo colocou o invento ao domínio público, o que possibilitou seu desenvolvimento maior.

Inicialmente, ocorreu grande descrença, chegando a comparar a fixação da imagem do homem como um sacrilégio. Os pintores à época o faziam por uma benção divina, sem equipamentos mecânicos. E foi sobre esta temática que os filósofos da arte fotográfica debateram durante 100 anos, sem chegar a algum resultado. Neste turbilhão, o físico Arago defendeu a invenção de Daguerre em 03 de Julho de 1839 na câmara dos deputados, em que o sucesso advém da beleza de seu discurso, abordando o aspecto da atividade humana e todo esforço e técnica de Daguerre em manipular suas placas e a química necessária a se obter seus resultados. Falou de filologia e astrofísica, com a ideia de fotografar as estrelas, corpus de hieróglifos egípcios. As placas de Daguerre de prata e iodadas, eram guardadas em estojos, como jóias.

Vários pintores, como Utrillo, utilizaram 70 anos após, cartões postais como fonte visual para suas pinturas. David Octavio Hills, retratista famoso, compôs seu afresco sobre o primeiro sínodo da igreja escocesa, em 1843, através de várias fotografias de sua própria autoria. Mas novas técnicas parecem surgir, especificamente, mais interessantes à fotografia. Hill, acostumado aos retratos de família, que com o tempo, dentro das famílias, eram esquecidos e só representavam o valor do artista, concorre com a fotografia da moça na rua dos peixes, com a cabeça baixa, não posada, seduz ao fotógrafo Hill. Aqui, no momento exato de uma fotografia, podemos entender como nos colocamos a contemplar imagens que nos provocam o pensar, a procurar o entendimento em uma imagem que parece transmitir em certos momentos, por sua composição, eventos futuros. Algo inexplicável e aplicável somente a fotografia. A natureza que fala à câmera não é a mesma que fala ao olhar, é outra, que percorre o mesmo espaço de forma inconsciente enquanto o homem percorre consciente. Só a fotografia revela esse inconsciente, como a psicanálise revela o inconsciente pulsional.

A fotografia revela um mundo de imagens das mais minúsculas assim como exprime a alma de seu modelo, mostrando que técnica e magia é uma variável totalmente histórica. O fotógrafo Dauthendey se refere aos daguerreótipos: as pessoas não ousavam a princípio olhar por muito tempo as primeiras imagens por ele produzidas. A nitidez destas fisionomias assustava, e tinha-se a impressão de que os rostos nos olhavam, tanto era para todos a surpreendente nitidez dos primeiros daguerreótipos. Os jornais estavam surgindo, não eram muito comprados e o rosto humano ainda era rodeado por um silêncio em que o olhar repousava.

As primeiras fotografias de Hill acontecem em um local inusitado para ainda retratar-se rostos humanos, o cemitério. Mas isso acontece por um imperativo técnico que ocasionava naturalidade com que os modelos apareciam nestes ambientes. A luz necessária e suficiente ao registro naquelas chapas de fraca sensibilidade exigia longas exposições, com o que Hill teria de deslocar-se a locais retirados, sem muita perturbação.

Isso também transforma o efêmero, trazendo o modelo a uma maior vivência dentro do processo fotográfico. Neste período observa-se com razão a questão a saber: “Se um esportista ficará tão célebre que os fotógrafos de revistas ilustradas queiram retratá-lo” será decidida na mesma fração de segundo em que a foto será retratada. Na realidade o processo de fotografias neste período era mais demorado, eram realizados para serem demorados, o que talvez seja um dos sintomas mais precisos do que aconteceu na metade deste século, as próprias roupas naquele período, tinham mais dobras. Tudo indica que um fotógrafo, por volta de 1850, estava a altura de seu instrumento.

Neste período, começava a ocorrer as pinturas ao ar livre, o que ficou bem claro ter sido abdicado, pela pintura, à fotografia. As transformações dos daguerreótipos nesta sociedade foi realmente muito grande. Giovanni Battista Porta: No que se refere aos efeitos provocados pela transferência imperfeita de nossa atmosfera, impropriamente caracterizados como perspectiva aérea – onde nem os pintores mais experientes esperavam conseguir isto através da câmera obscura, isto se refere a cópia das imagens que nela aparecem. Mas os prejudicados pela fotografia neste período não foram os pintores de paisagens, mas sim os pintores de miniaturas, em que por volta de 1840, a maioria já tinha se transformado em fotógrafo. Cem anos após, estes pintores foram vingados, pois com os fotógrafos desta época, surgem as fotos retocadas, uma bruta decadência. As fotos neste período lembram as primeiras, que pela longa exposição, os modelos necessitavam ter pontos de apoio para imobilidade necessária.

Já nos anos 60 surgem as fotos domiciliares, em que colunas eram apresentadas em fotos, mas o pior é que a mania de usar estas colunas as faziam surgirem de tapetes de sala, algo inconcebível na estrutura de construção. Então surgiram os estúdios e todos os seus apetrechos que mais escondiam os modelos e poluíam as imagens. Neste período também aparece o mezzo tinto, algo como que um forte contraste, algo que os pintores tinham recentemente alcançado, um pouco antes do surgimento da fotografia. Assim como também o efeito aurático, um belo e significativo efeito na foto, hoje considerado antiquado. Mais tarde surgem lentes que eliminavam a parte escura, retratando como um espelho. Os fotógrafos em 1880 viam como sua tarefa criar a ilusão da aura. Continua sendo decisiva na fotografia, a relação entre o fotógrafo e sua técnica.

Em 1900, é alcançado o efeito em fotos parisienses, consideradas precursoras do surrealismo, fugindo da fotografia de retrato, considerada convencional. Suas fotos buscavas as coisas urbanas perdidas e extraviadas, compostas de elementos espaciais e temporais. Aqui se apresentam imagens urbanas diferenciadas das imagens dos jornais e dos cinemas. Suas fotos de espaços urbanos vazios prepara uma saudável alienação do homem com seu mundo ambiente. Estas iluminam os pormenores destes espaços.

Subitamente o rosto humano apareceu na chapa com uma significação nova e incomensurável. Augusto Sander realiza uma série com 60 reproduções que oferecem uma inesgotável matéria para observação. Sander alcança, assim, um ponto de vista científico, situado além da fotografia de pormenores.  Nenhuma obra de arte é contemplada tão atentamente em nosso tempo como a imagem fotográfica de nós mesmos, de nossos parentes próximos, de nossos seres amado, removendo a esfera das questões estéticas para as funções sociais. Aqui notamos o pior perigo da fotografia contemporânea, a mercantilização, que também aparece ligada a uma fotografia criadora, em oposição a uma fotografia voltada ao conhecimento.

Referências:

BENJAMIN, W. Pequena História da Fotografia In: Magia e Técnica, Arte e Política. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. PP. 91-107. 

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Altemir Viana
Graduando em Artes Visuais (FURG).
Tema de pesquisa: Seres imagéticos em um mundo imagético: a fotografia como viés para reflexões educacionais.