Visões da periferia


Segue-se abaixo minhas considerações acerca do texto que me foi proposto para leitura e posterior resenha. O texto lido se chama Consumo e Cidadania: em perspectiva a recepção do rap da periferia paulistana (2015), escrito por Maria Aparecida Baccega, Fernanda Elouise Budag, Rosilene Moraes Alves Marcelino e Maria Amélia Paiva Abrão (essa última pode ser uma parente minha perdida, dado o sobrenome Paiva que não é tão comum assim em São Paulo, que é de onde venho).

De início deixo claro que considero bem pertinente o debate promovido pelas professoras nos locais em que desenvolveram essa pesquisa, que foi em duas universidades particulares na cidade de São Paulo. Ainda, achei curioso o grupo escolhido para participar dessa atividade, consistindo, de acordo com o texto produzido, de estudantes de classe média e classe média alta.

Foi proposto à esses estudantes que expusessem suas considerações sobre alguns elementos entregue por elas (professoras), elementos esses que são o Rap, o grupo de rap Racionais Mc’s, cujas músicas Capítulo 4 Versículo 3 e Vida Loka parte 2 foram analisadas na atividade, sobre a ideia de Consumo e por fim, sobre o que seria Cidadania.

Aqui cabe alguns questionamentos que fiz para mim mesmo ao longo da leitura do texto. Questões acerca do tipo do público escolhido para a realização da atividade, por exemplo, já que o assunto diz respeito mais propriamente à periferia, por que não apresentar esses elementos para alguém de lá transmitir suas ideias sobre o assunto? Um outro questionamento se baseia na possibilidade de tudo o que foi dito pelos alunos ao longo da conversa com as professoras sobre os elementos abordados na discussão ter sido dito de maneira mentirosa e hipócrita! Quais os meus motivos para levar isso em conta? Vos respondo com outra pergunta: qual a garantia que eu tenho de que esses mesmos alunos que disseram que o Rap “é a salvação para muitas pessoas” (p. 51) quando não estão dizendo isso em uma pesquisa acharem que o Rap é uma “porcaria e coisa de neguinho favelado”, como já ouvi algumas vezes ao longo da minha vida?

Caso o público escolhido para essa conversa fosse um público periférico, de uma escola estadual ou municipal da zona leste ou oeste da cidade de São Paulo, eu depositaria mais fé no discurso. Claro, isso não quer dizer, de modo algum, que eu deslegitimo a pesquisa realizada pelas professoras, apenas considero que seria válido um acréscimo de depoimentos de pessoas que vivem na periferia e diariamente lidam com as problemáticas presentes nela, coisa que nenhum “boy” conseguiria realmente entender e quiçá, suportar. Digo isso no sentido de que talvez o trabalho ficasse mais encorpado tendo os argumentos de dois seguimentos sociais historicamente antagônicos, para aí, se realizar uma análise mais consistente sobre a apreensão dos elementos propostos, ou seja, averiguando empiricamente (é a primeira vez que uso essa palavra em um texto) quais as formas de apreensão do Rap, das músicas do Racionais Mc’s, do sentido de Consumo e de Cidadania.

Dou-lhes exemplos, e aqui falo como homem que cresceu e, mesmo mudando de cidade, viveu em uma área periférica. Quanto ao Rap, concordo com a afirmação do estudante de que o Rap salva as pessoas (mesmo que por ventura essa afirmação seja falsa para o estudante que a fez), mas vou além: o Rap consegue se comunicar com a galera da periferia muito melhor que muito professor dando aula em escolas nessas localidades, por um motivo que até parece simples, mas que faz toda a diferença: ele fala, ou melhor, canta a vida daquela gente se utilizando da linguagem daquela gente. Eu poderia ficar falando aqui sobre a importância do Rap (Du bom) pra periferia, mas vou guardar essas informações pro meu TCC, portanto, quando ele sair dou-lhes aval para lê-lo.

Sobre o Racionais Mc’s, eu não tenho muito o que falar, apenas que foi o grupo responsável por eu ter me apaixonado por esse estilo musical e que, também, “apenas” é considerado o maior grupo do gênero no Brasil. Basta olharmos para o enorme sucesso alcançado pelos caras que veremos a importância deles dentro da periferia, já que, fundamentalmente, eles fazem parte da MPB, e se a periferia, se o popular os “abraçou”, isso é, se o povão se viu representado e consumiu aquilo, eventualmente aquilo será importante para o povo. Quem passa a consumi-lo depois de alcançada a fama e o sucesso, é uma outra questão.

Chegando à noção de consumo, digo que vi muitos amigos meus de infância se perderem na esperança de ter um “but” (tênis) da hora, uns “panos” (roupas) de marca, uma “nave” (um carro, pra caso você não for da periferia e não entender o que eu estou falando) do ano. Como e por quê se perderam é algo que vale relatar. O ocidente capitalista conseguiu enraizar até as camadas mais fundas de nosso ser a ideia de que pra você ser, você obrigatóriamente tem que ter! E ter mais do que o próximo, de preferência. Pode-se dizer que o consumismo é uma das maiores doenças dos séculos XX e XXI, e ele contamina dos mais jovens aos mais velhos; agora eleve essa vontade de consumir para ser alguém à algumas potências, tendo em vista que quem está querendo veículos, roupas de marca e dinheiro é um “moleque de quebrada”, que em sua vida nunca teve acesso à coisas até que simples mas que cruciais, como um pai, uma cama pra dormir, até mesmo um prato de comida ou um telhado em que não haja inúmeros buracos. Ao longo de minha vida nas escolas, especialmente, durante os ensinos fundamental e médio, algumas vezes me deparei com colegas e amigos passando por essas situações.

Diante disso, muitos deles seguiam pelo único caminho que se apresentava para sair dessa situação, um que não exigia ensino médio completo, nem curso técnico, nem superior e muito menos seis meses de experiência; exigia apenas atitude e disposição. E para ilustrar os modos em que esse sustento da família e consequente ascensão econômica e social, evoco um trecho de uma música que por coincidência relembre em razão da ideia exposta acima, de que para você ser você tem que ter, música essa interpretada por Mc Lon e Mc Guimê, de nome “Você Vale o que Tem 2” (2011), onde se segue:

Menor sonhador não teve outra escolha/E nem outras opções/Se jogou na vida louca atrás de suas condições/Ninguém nunca o dava nada/Esculaxava o moleque/Subiu vários degraus da escada no artigo 157/O passado te condenava, mas ele era mais forte/Sempre em busca do poder, da fama, dinheiro e malote [...]

E não somente isso. Alguns de meus colegas também seguiam por outra vertente desse mesmo caminho, iam trabalhar com a venda de drogas, o que num primeiro momento lhes deu um rápido retorno, mas que, para alguns, rendeu algum período no sistema carcerário onde, ao contrário do que dizem, após conversas com esses mesmo colegas, realmente não “regenera ninguém”.

Por sua vez, o último elemento trabalhado pelas pesquisadoras com esse grupo de estudantes de classe média e média alta, que é a Cidadania. Quanto à ele, não tenho o menor problema em dizer que é algo nebuloso para mim, o que me faz questionar se, por acaso, um indivíduo com menos instrução do que eu, que mesmo não estando formado, estou no último ano do curso, conseguiria responder o que esse conceito significa.

Porém, após uma rápida busca no Google, entendi de maneira bem rasa o que isso quer dizer e, portanto, compreendo que mesmo a ideia sendo muito bonita e bem elaborada, de nada vale na periferia, uma vez que, presente na Cidadania, pressupõe-se alguns direitos básicos que todo cidadão tem, como o direito à saúde, moradia, alimentação e educação. Não é preciso dizer se todo morador de periferia têm esses direitos garantidos por um Estado que cobra de todo cidadão o cumprimento de seus deveres, como o voto em especial. Nesse quesito, resta-me apenas imaginar qual seria a resposta de moradores que tiveram ou que ainda têm condições de vida em níveis bem mais baixos do que as que eu tive...

Para finalizar, considero o trabalho feito pelas pesquisadoras muito pertinente, principalmente no que tange ao Rap, visto que trabalho com ele em meu TCC e, também, por me apresentar uma série de autores que me pareceram interessantes de incluir no meu trabalho (sinto que isso me dará uma baita dor de cabeça caso eu siga com essa ideia) mas, principalmente, por fazer com que despertassem em mim uma série de questionamentos acerca de como eu mesmo enxergo o Rap, tanto ao que tange ao gênero especificamente, no que diz respeito à todas as esferas que o Rap tem potencialidade de promover um debate e ajudar na conscientização do povo pobre, já que fala a mesma língua que ele.


Referências

BACCEGA, M. A Et al. Consumo e Cidadania: em perspectiva a recepção do rap da periferia paulistana In: Comunicação  &  Educação/Revista  do  Departamento  de  Comunicações  e  Artes  da  Escola  de  Comunicações  e  Artes  da Universidade de São Paulo.  Ano 20, n. 2.  São Paulo:  CCA-ECA-USP,  2015. PP. 47-55.

Acesse o texto original aqui.



Graduando em História (FURG).
Tema de pesquisa: A potencialidade da Educomunicação no Rap Paulista.